icon Quinta-feira, 14 de Novembro de 2019

AGRO & ECONOMIA - A | + A

18.10.2019 | 22h:45

De costas para o Brasil

Por: IG Economia

Donald Trump arrow-options
Divulgação/Twitter/Potus
Estados Unidos e China fecharam um acordo comercial após embates que acontecem desde a eleição de Donald Trump

O país anda tão mergulhado em seus próprios problemas que muita gente tem se esquecido de prestar atenção às decisões internacionais que afetam diretamente seus interesses e podem prejudicar ainda mais a combalida economia do país.

Foi o que aconteceu, por exemplo, no início da semana, com o avanço das negociações entre os
Estados Unidos e a China para colocar um ponto final na guerra comercial que vêm travando desde a posse de Donald Trump.

EUA e China chegam a acordo que pode dar trégua à guerra comercial; entenda

No início de agosto passado, foi dito neste espaço que o acordo entre as duas potências era uma questão de tempo não por rendição dos chineses, mas por pressão dos  agricultores americanos.

No calor das desavenças, eles viram a queda acentuada de suas  exportações de soja para a potência oriental. Não gostaram da situação e passaram a exigir que o governo encontrasse um jeito de não prejudicá-los.

Pois bem: o pré-acordo que Trump espera ratificar no próximo mês prevê como a  contrapartida chinesa para a redução das sobretaxas sobre produtos chineses o aumento das exportações de grãos, exatamente como exigia o secretário da Agricultura dos Estados Unidos Sonny Perdue.

Artigo: Briga de cachorro grande

Ex-governador da Georgia e defensor intransigente dos interesses dos agricultores , Perdue chegou a anunciar, ainda no mês de julho passado, que o acordo sairia em poucos meses. Ele previu, inclusive que o aumento imediato das exportações dos grãos  seria de 20 milhões de toneladas. 

 Para comprar toda essa soja dos americanos, os chineses terão que deixar de comprá-la de seu outro grande fornecedor: o Brasil.

Os culpados de sempre

Tereza Cristina arrow-options
MARCELO CAMARGO/AGÊNCIA BRASIL
Tereza Cristina, ministra da agricultura, é criticada por defender o campo

Não há nada de errado com os movimentos de Perdue na defesa dos interesses de sua
pasta.

Leia também: E por falar em valores cristãos...

Em qualquer país sensato do mundo as pessoas consideram uma obrigação do responsável por um ministério (ou secretaria, como as pastas são chamadas nos Estados Unidos) a implementação de políticas públicas voltadas para os interesses dos segmentos sob sua responsabilidade.

Nada mais natural, por mais acaciana que a frase pareça, que um secretário da Agricultura faça o que estiver a seu alcance para beneficiar os agricultores. Tal obviedade, que vale para qualquer lugar do mundo, não se aplica ao Brasil.

Por aqui, tem gente que protesta toda vez que a ministra Tereza Cristina ergue a voz em defesa do campo.

Na opinião de certas militâncias urbanas, a ministra deveria unir sua voz ao coro dos que se juntam em frente ao MASP, em São Paulo, ou na Cinelândia, no Rio de Janeiro e exigem que o mundo deixe de comprar alimentos  brasileiros em protesto contra os incêndios na Amazônia.

Calma! Os incêndios na Amazônia são extremamente graves e o governo federal, bem como os governos estaduais, têm a obrigação de combate-los e de punir quem os provoca — sejam eles fazendeiros, grileiros, indígenas ou militantes interessados em ver a floresta pegar fogo.

Mas daí a atribuir ao agronegócio a culpa pelos incêndios seria o mesmo que responsabilizar os pescadores do porto de Mucuripe, em Fortaleza, pelo derramamento de óleo que (diante do silêncio das organizações ambientalistas) vem empesteando as praias do Nordeste: além de uma estupidez sem tamanho, seria uma injustiça descomunal.

Queda na safra

soja arrow-options
Reuters
Agronegócio brasileiro enfrenta dificuldades econômicas em 2019

Mas isso não importa e parece que, por vias indiretas, a turma que defende esse tipo de insensatez logo terá o que comemorar: as dificuldades que atingiram o conjunto da economia nos últimos anos, parece que finalmente estão chegando ao campo.

Na semana passada, o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), de Piracicaba, divulgou os números do PIB Agrícola Brasileiro referentes a julho deste ano — e eles não são tão viçosos como os dos anos anteriores.

Leia mais: Um imenso Portugal

Pelo levantamento do Cepea, que é ligado à Escola Superior de Agricultura Luíz de Queiroz, da USP, feito com o apoio da Confederação Nacional da Agricultura, a produção rural , que se notabilizou como o único braço dinâmico da economia brasileira nos momentos mais agudos da atual crise econômica, começa a dar sinais de perda de fôlego.

No conjunto, os negócios do campo tiverem, entre janeiro e junho, um crescimento modesto , de apenas 0,64% em relação ao ano passado. O número é preocupante. Esse crescimento discreto só foi possível porque a pecuária — que sempre andou atrás da produção de grãos na formação do PIB do campo — desta vez saltou na frente.

Entre janeiro e julho deste ano, estimulada pelo aumento da demanda mundial por proteína
animal, a produção de carnes cresceu 7,04% em relação aos mesmos sete meses de 2018. A safra de grãos , no entanto, recuou 1,75% em relação ao ano anterior.

A queda foi motivada por um conjunto de fatores que começam pela redução das chuvas em relação à safra passada, passam pela redução dos preços de algumas commodities importantes e, claro, desaguam nas condições gerais da economia brasileira — que, como é obvio, acabaram repercutindo negativamente sobre o campo.

Num cenário como esse, ao invés de proteger o que dá certo , o Brasil faz exatamente o
contrário. 

Amigos, amigos...

Eduardo Bolsonaro arrow-options
Paola de Orte/Agência Brasil
Deputado Eduardo Bolsonaro não esconde sua simpatia pela família de Donald Trump

O silêncio do governo brasileiro em relação aos termos do acordo entre as duas maiores  potências econômicas do mundo é preocupante.

Nenhuma autoridade por aqui abriu a boca para se queixar dos prejuízos que virão com o aumento dos volumes das exportações de soja, de milho e de derivados da carne de porco dos Estados Unidos para a China causará um prejuízo monumental ao campo brasileiro.

Análise: Mudar para ficar igual

Isso mesmo. Dizer que os Estados Unidos venderão mais alimentos para a China implica dizer, na mesma frase, que o Brasil passará a vender menos. Parece que a enorme simpatia que o deputado Eduardo Bolsonaro tem pela família do presidente Donald Trump não será suficiente para livrar o Brasil de uma realidade incômoda.

O campo dos Estados Unidos é o maior adversário do único setor produtivo dinâmico na economia brasileira — o agronegócio . Cada vez que um militante na Avenida Paulista ergue um cartaz criticando a produção rural brasileira, um fazendeiro bate palmas na Georgia. E a vida segue.



Fonte: IG Economia
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