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26.09.2019 | 12h:49

Do amor a dor; uma reflexão acerca do Feminicídio

Por: Andréia de Fátima de Souza Dembiski

 

violencia contra a mulher

 

O índice de violência contra a mulher vem crescendo de forma exacerbada nos últimos anos. Tal violência ocorre em várias esferas da vida se manifestando sob diferentes formas e circunstâncias. Nesse sentido, dentre as inúmeras situações de violência que vitimam as mulheres, destacam-se, aquelas ocorridas no espaço definido socialmente para as mulheres como espaço privado, a família e o domicílio (SANTI, 2010). É importante darmos esse destaque, pois, na maioria dos casos os agressores tem algum tipo de vinculo afetivo com as vitimas, ou seja, a maioria dos casos de violência acontece no ambiente doméstico. Desde 1990, a Organização Mundial da Saúde considera a violência contra as mulheres - designada violência de gênero -, como um problema de saúde pública.

 

O feminicídio corresponde a qualquer manifestação ou exercício de relações que sejam desiguais entre homens e mulheres, culminando com a morte de uma ou várias mulheres, isso pela própria condição de ser mulher. O feminicídio revela a existência de uma ocupação depredadora dos corpos femininos ou feminizados. Ocupação essa calcada em um sistema que não só a tolera, como, a naturaliza e coloca o feminino em um lugar de subalternidade. Dessa forma, o território corporal das mulheres é violado para consumar a morte, ou efetivar sua tentativa. (MACHADO, ELIAS, 2018)

 

Este ano a Lei Maria da Penha (nº 11.340/2006) completa 13 anos, e ainda assim os números de mulheres assassinadas não param de crescer, embora existam algumas críticas em relação a efetivação da lei na prática, nos questionamos: Quais seriam os motivos para que mesmo sobre o risco de punição o homem continue violentando sua companheira ou qualquer mulher que seja? O que faz com que ele se sinta no direito de violentar uma mulher?

 

As respostas a essas perguntas estão na forma em como nossa sociedade se estruturou ao longo da história. Sabemos que não é de hoje que as mulheres são tidas como propriedades dos homens. A mulher é vista em nossa sociedade apenas como um objeto, responsável por cuidar da casa, dos filhos, de satisfazer o homem em suas necessidades sexuais e responsabilizada pelo que socialmente é chamado de “fracasso no casamento”. Não é difícil perceber o quanto reproduzimos esses discursos de subalternidade da mulher em nosso dia-a-dia. Frases como: “Se eu fizer isso, ou aquilo meu marido vai me matar, ou, lugar de mulher é na cozinha” corroboram para a naturalização da violência contra as mulheres.

 

As mulheres vivem ainda nos dias de hoje sob dominação. É importante salientar, que a dominação é masculina, e a consequente violência contra a mulher tem sua origem no patriarcado, uma vez que este sistema permite a superioridade masculina nas relações de gênero. Nesse sentido Campos (2012) descreve alguns fatores que contribuem para a prática da violência contra a mulher, de acordo com o autor a falta de punição dos agressores, o silêncio das mulheres agredidas, a inferioridade das mulheres e a transformação das vítimas em culpadas são questões de merecem atenção.

 

Embora muitos responsabilizem as mulheres pelas agressões que sofrem é preciso compreender o quão complexo pode ser essas relações, nenhuma mulher se relaciona com uma pessoa que se mostra agressiva no primeiro encontro. A romanização dos relacionamentos, a ideia de “príncipe encantado” faz parte de nossa cultura, quantos contos de fadas nos encantam? O quanto o sonho de “cinderela” não mascaram as relações?

 

Quando falamos em violência praticada pelo parceiro faz-se necessário um olhar sensível para todas essas questões que são estruturais da nossa sociedade, as agressões vão acontecendo de forma gradativa, e sempre com o “arrependimento” do agressor somados a pedidos de perdão, juras de amor eterno e promessas de mudanças.

 

Estaríamos então dizendo que as mulheres são ingênuas a ponto de serem “iludidas” por essas juras de amor eterno? Em hipótese alguma, o que pretendemos é evidenciar a complexidade que envolve um ciclo de violência domestica. Uma mulher que é agredida pelo companheiro não sofre apenas com as agressões físicas, ela sofre também a violência psicológica (que podem incluir discursos socioculturais, religiosos que irão interferir de forma significativa no lugar subjetivo que esta mulher ocupa), financeira (impossibilitando que essa mulher consiga sair da relação por não ter condições de se sustentar e dar sustento aos filhos).

 

A luta das mulheres por direitos igualitários, por respeito e por que não dizermos pela vida é diária, nessa batalha faz-se necessário um olhar atento, respeitoso e acolhedor para que as vítimas encontrem amparo emocional e legal diante de uma situação de violência para que os índices de feminicídio não continuem aumentando.

 

REFERÊNCIAS

 

BRASIL. Presidência da República. Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006.Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004- 2006/2006/lei/l11340.htm>. Acesso em: 06/09/2019.
CAMPOS, Amini Haddad; CORRÊA, Lindinalva Rodrigues. Direitos Humanos das Mulheres. Curitiba: Juruá, 2012.
MACHADO, Isadora Vier; ELIAS, Maria Lígia G. G. Rodrigues . Feminicídio em cena Da dimensão simbólica à política. Tempo soc. [online]. , vol.30, n.1, 2018.

 

Andréia de Fátima de Souza Dembiski é psicóloga em Cuiabá

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COMENTÁRIOS

Rosana A B Martins - 11/10/2019

Ótima iniciativa Andréia descrever de forma tão clara e relevante a triste realidade que constantemente presenciamos em nosso país.

Midiã Pires - 30/09/2019

Lindo texto Andreia, nos move a pensar e refletir sobre a força de ser mulher ... Gratidão !!

Lo Ruama Fedrizzi - 30/09/2019

O que a autora Andréia traz, é algo que está cada vez mais em discussão. Muitas mulheres estão em um relacionamento abusivo e não se percebem. É importante cada vez mais se falar sobre a violência contra a mulher tanto física quanto psicológica. E mostras a elas que há espaço de fala e lugares que estão preparados para acolher e ajuda-las a se estruturar novamente.

Rony Campos Soares - 29/09/2019

Parabéns Andréia pelo texto que nos remete a pensar mais intensamente sobre esse absurdo que é a violência para com uma pessoa genitora, de onde esse verme, agressor, fora gerado. Se ele tivesse pelo menos o senso de lembrar disso antes de cometer tal ato, talvez não prosseguiria com a violência.

Anna Carolina Cassol Abraços - 29/09/2019

Essa realidade proposta no texto ainda ocorre, porém já foi muito maior. Porém graças a tudo que o tempo e algumas guerreiras nos proporcionaram avançamos um pouco mais nessa conquista. E o que posso afirmar é que a cada geração menos mulheres aceitam ações patriarcais que possam ocasionar desvantagens para as mulheres.

Daniely Souza - 28/09/2019

Excelente reflexão. Textos assim possibilitam que a palavra circule e que novas formas de subjetividades sejam alcançadas.

Daniel Souza - 28/09/2019

Excelente reflexão. São textos como esse que possibilitam que a palavra circule e que novas formas de produção de subjetividades sejam alcançadas

Daniely Souza - 28/09/2019

Excelente reflexão. São textos como esse que possibilitam que a palavra circule e que novas formas de produção de subjetividades sejam alcançadas.

MARIA PETRONILHA DE SOUZA - 28/09/2019

Temos que por em prática falar divulgar pois ainda existe medo ou vergonha para denunciar

Viviane - 28/09/2019

Muito importante abordar esse assunto pra esclarecer pois muitas pessoas ainda acham que feminicidio é invenção, mas isso é real e pode estar acontecendo em seu próprio núcleo...

12 comentários

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