Domingo, 23 de Junho de 2024

ARTIGOS Terça-feira, 24 de Novembro de 2020, 10:21 - A | A

Terça-feira, 24 de Novembro de 2020, 10h:21 - A | A

Sirlei Theis 

O discurso do demagogo

Sirlei Theis 

Ser articulista fixa há quase 2 anos tem sido um grande desafio para mim todos os finais de semana. Não importa se na segunda-feira será feriado, se vai chover ou fazer sol, se vou viajar ou ficar em casa no final de semana, se estou bem ou não, o artigo precisa ficar pronto até o domingo a noite. Já foram mais de 100 artigos escritos nesse período, mais de 100 temas, mais de 100 ideias lançadas para a critica do leitor.  É um compromisso comigo mesma, pois consigo me disciplinar, estudar e lançar minhas ideias para debates, mas em certas semanas, confesso que falta energia, falta ideia, falta assunto atual, falta pauta interessante para falar e fico na dúvida quanto ao assunto que vou escrever.

Hoje, é um dia desses em que esperei até a última hora pela inspiração e ela veio de um grupo no whatts app, onde o meu amigo e jornalista Eduardo Gomes (Brigadeiro), comentava sobre os políticos e candidatos que escrevem artigos apenas no período da campanha política. Nesse período surgem muitas pessoas pensantes e críticas, dispostas a falar sobre as suas ideias e debater os temas que estão em evidência, mas logo depois que acontecem as eleições, essas mesmas pessoas desaparecem e voltam depois de 2 ou 4 anos.

No período eleitoral, surgem muitos ativistas, pessoas que nunca falaram ou fizeram algo em relação a causa abordada, mas de uma hora para outra se tornam especialistas, defensores de uma vida toda. De repente do nada surgem políticos compromissados, atentos ao bem-estar de determinados grupos, mas no primeiro pé de vento se afastam em prol de interesses pessoais.

O engraçado nisso tudo é que a grande maioria defende aquilo que não conhece, são ativistas de uma causa fantasma, isso quando não roubam a ideia alheia apenas tentando surfar uma onda imaginária que podem lhe render votos, pelo menos esta é a esperança.

Tem aqueles que chegam ao cúmulo de contratar as pessoas que vão escrever sobre “suas ideias”. São os donos do discurso pronto e vazio. Nesta eleição tivemos mais de 700 candidatos a vereadores em Cuiabá e muitos outros Mato Grosso a fora. Você vai perceber que a grande maioria vai mesmo desaparecer na escuridão da derrota. Não vão ter força para continuar lutando pelos “seus ideais”, por que na verdade nada era real. Tudo não passou de arapuca para tentar pegar o incauto eleitor que deu a resposta nas urnas.

Muitos já conseguiram se eleger com a pecha da anticorrupção e temos inúmeros exemplos, recentes inclusive, onde depois de eleitos nada fizeram em relação a questão estrutural da corrupção existente no Brasil.

Anticorrupção, a pauta mais demagoga de todas, pois quem já estudou profundamente sobre o tema sabe muito bem, que o combate a corrupção não acontece apenas na esfera do discurso ou ao eleger somente um dos lados para combater. A corrupção é estrutural como já disse e está em todas as esferas da administração pública, devendo ser combatida com ações contínuas e eficientes e não com discurso demagógico, que poupa um lado porque lá tem amigos ou interesses pessoais. Nada é mais vazio e demagógico do que se colocar fortemente contra algo, que ninguém é a favor ou deveria ser.

O populismo midiático-vingativo nunca diminuiu nenhum tipo de crime em nosso país, essa é a bem da verdade. O máximo que conseguimos foi prender por algum tempo alguns corruptos, que logo foram soltos para usufruir o fruto da corrupção. E o pior de tudo isso, é que são substituídos por outro grupo que não fará muito diferente porque a questão é estrutural e na pauta do demagogo não existe conhecimento suficiente e nem aparece as ações que poderão mudar de fato essa realidade.

O que precisamos é de políticas públicas eficientes com menos falácia e mais ação, capazes de mudar essa realidade num futuro não muito distante.

Discursos são formados pela mesma matriz, fora isso, tudo não passa de engodo eleitoreiro e isso não cabe mais em nosso mundo, é hora de fugirmos dos discursos faciosos e vazios, de nos emanciparmos, como dizia o filósofo Kant no século XVIII, ou continuaremos contabilizando cadáveres antecipados.

Sirlei Theis é advogada.

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