Sábado, 20 de Julho de 2024

ARTIGOS Segunda-feira, 13 de Março de 2023, 13:42 - A | A

Segunda-feira, 13 de Março de 2023, 13h:42 - A | A

Barbara Lenza Lana

Caça às bruxas refletida nos discursos e comportamentos de mulheres que mantêm o patriarcado

Conceituar as mulheres essencialmente como vítimas do patriarcado é retirar delas a qualidade de sujeitos e agentes da história. Do destronamento da grande Deusa à execução das mulheres nas fogueiras da Santa Inquisição, que deixaram inegáveis sequelas no universo feminino, temos a colaboração de mulheres que reproduzem o machismo por meio de seus discursos e comportamentos a sustentar esse sistema de sobreposição do masculino sobre o feminino.

Como aponta Simone de Beavouir, “o opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos”. Mas por qual razão? Quais seriam as motivações dessas mulheres? Ouso afirmar que por questões de sobrevivência.

Por mais que ocupemos espaços públicos e políticos, temos ainda, na nossa sociedade, a busca por ter ou ser a “bela, recatada e do lar”, que diferentemente das mulheres questionadoras e assertivas, que não temem ocupar espaços masculinos com altivez, é aclamada e destacada como respeitável, inteligente, equilibrada, sensata, sábia, dotada de sensibilidade feminina e, sobretudo, muito bonita.

Como aponta Simone de Beavouir, “o opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos”. 

Em regra, quando uma mulher se vê rotulada por homens com essa série de atributos, ela sente que está fazendo a “coisa certa”, e segue, na tentativa de apagar ou emudecer toda e qualquer outra que reivindica direitos e/ou aponta privilégios e/ou desigualdades de gêneros em nossa sociedade.

Por quê?

Na Santa Inquisição, a execução das bruxas em praça pública, especialmente, diante de suas filhas, era uma advertência para toda aquela que ousasse, ainda que mínima e intimamente, questionar ou subverter a ordem do sistema, que lançou mão de campanhas para repovoar a Europa após a peste negra, que levou mais de dois terços daquela população, sendo uma dessas “campanhas”, a descriminalização do estupro da mulher pária, aquela “solta”, sem pai ou marido.

As bruxas em sua maioria eram as mulheres pobres que foram estupradas (logo, impuras), e as velhas parteiras que, conhecedoras das ervas (e da magia, segundo o clero), eram culpabilizadas pelas crianças natimortas.

Para as mulheres respeitáveis a proximidade com essas não respeitáveis, as bruxas, representava perigo, eis que a impureza e a magia demonizavam a mulher, que poderia a partir de então levar todas e todos à sua volta à desgraça!

Exemplo disso é Eva, que só conduziu Adão à queda, porque deu ouvidos à Lilith, a mulher demônio.

As mulheres que não se deixavam contaminar pelas pobres estupráveis e/ou pelas as velhas feiticeiras, eram recompensadas com admiração, segurança e destaque.

É por medo das chamas, e/ou pela necessidade de aceitação, que desde a Caça às Bruxas, “Rainhas do Lar” vêm criando, nos moldes da mística feminina, “Princesas” em segurança, nas suas gaiolas douradas.

A “princesa” desde a tenra idade aprende desde cedo que o mundo é perigoso para ela que é frágil e não sabe se cuidar, mas que se esperar com paciência e cuidar bem de sua beleza, um dia será notada por um homem forte, inteligente e próspero, que a escolherá como sua companheira dentre todas, e a presenteará com uma família, para que ela finalmente, cumpra com a sua missão de ser mãe e esposa.

Também que os melhores homens preferem as mulheres mais bonitas e delicadas que entendam que às vezes eles podem ser hostis ou indiferentes, e que não devem provocá-los nem questioná-los, porque eles têm uma natureza muito violenta. E o mais importante: vão observar as suas companhias.

Por fim, que quando forem escolhidas, que devem tomar muito cuidado com outras mulheres, porque é da natureza feminina ser invejosa e traiçoeira.

É fato que já não mais é possível (espera-se) que as mulheres subversivas sejam queimadas em praça pública. Na medida em que o tempo foi passando, as labaredas que envolviam os corpos das bruxas foram mudando de figura e a morte física foi dando espaço para a morte social.

Para a mulher respeitável, a mulher revolucionária, especialmente, a feminista, representa perigo para o sistema que, conforme para ela foi ensinado, a mantém em segurança.

Quando uma mulher se cataloga como respeitável em detrimento da que ela identifica como não respeitável, confessa a total ignorância de sua história, e o pior, do seu verdadeiro lugar e da sua verdadeira função no sistema patriarcal.

É pelo medo de identificar-se com a mulher que é morta, estuprada, espancada e rechaçada, a “coisa” rústica e barata- que pode ser facilmente substituída, é que a “feminina, mas não feminista”, reflete comportamentos machistas que contribuem para a manutenção do patriarcado.

Sua motivação é o apagamento de toda mulher que para ela, represente esse risco.

A jaula que a enclausura, é a mesma que, na sua percepção, a mantém segura.

Poucas pessoas sentem falta daquilo que desconhecem.

Bárbara Lenza Lana é advogada, professora universitária e pesquisadora em Direitos ds Mulher