Sábado, 22 de Junho de 2024

ARTIGOS Terça-feira, 08 de Dezembro de 2020, 15:13 - A | A

Terça-feira, 08 de Dezembro de 2020, 15h:13 - A | A

Eduardo Mahon

É possível sonhar novamente

O governo federal liberou, a contragosto, os recursos emergenciais para artistas de todos os segmentos, promotores culturais e profissionais do setor especializado. Explica-se. O nariz torcido se deu por conta da iniciativa (dep. Benedita da Silva, do PT) e da finalidade – apoiar a arte, tudo o que o governo atual acredita ser de “esquerda”. Não deixa de ser paradoxal que, em meio às quarentenas, os críticos do auxílio passem o tempo assistindo filmes e apresentações musicais de artistas pela internet. A contradição só evidencia o quão tacanha pode ser a mentalidade desse povo que quer livros sem escritores, música sem músicos, teatro sem atores, exposições sem artistas. Noutras palavras, adoram arte, desde que não haja os incômodos artistas.

Vencida a resistência governamental pela acachapante vitória no Congresso Nacional, restava aos Estados promover editais para identificar os artistas que mais precisavam dos recursos e, paralelamente, promover editais para o fomento cultural junto a pessoas físicas e jurídicas que se mostrassem habilitadas. Com uma condição. A espada de Dâmocles sobre a cabeça dos Secretários e dos Governadores é o tempo. Se não executarem tudo (elaboração de editais, publicação, cadastro, análise, resultados, recursos, homologação, empenho, pagamento e fiscalização) em 120 dias, perderão os recursos. Assim também se dá com os municípios que nunca tiveram estrutura burocrática mínima por conta do sistêmico desprezo que os governantes devotam à cultura.

Estava feita a aposta pelo governo federal: os “culturetes” não têm competência e, como se sabe, quem não tem competência não se estabelece. Pois o Estado de Mato Grosso deu uma resposta à altura. Depois de cadastrar os artistas que foram auxiliados pessoalmente com recursos da lei Aldir Blanc, viabilizou orçamento emergencial para que instituições culturais não fechassem. Foram centenas de beneficiados. Restava, entretanto, o imenso desafio de viabilizar também milhares de projetos, desde a fase de elaboração dos editais (com os intermináveis pareceres de cunho cartorial) até o empenho e pagamento dos proponentes. Espere um segundo: tudo em semanas. Semanas? Nem parece serviço público, mas é verdade! Uma Secretaria como a SECEL que tem uma equipe reduzidíssima e nenhum Procurador do Estado para amparar suas iniciativas, fechou-se em copas para trabalhar em regime de mutirão.

Servidores e conselheiros de cultura arregaçaram as mangas e passaram as madrugadas das últimas semanas entocados no bunker da Lava Pés. Na base do calmante e do cafezinho, soltaram os resultados perto de meia-noite, resistiram às protocolares acusações, comentários maldosos, ameaças e dedos em riste. Ultrapassando todas as previsíveis esculhambações de quem não foi selecionado, de quem foi selecionado mas queria uma nota maior, de quem achava sua proposta melhor do que as outras, de quem acredita que seu curriculum é suficiente para ganhar editais, enfim, de pessoas que se sentiram de alguma forma preteridas, escanteadas e enganadas, a SECEL sacramentou o resultado num universo de mais de 1.800 projetos, 500 e-mail’s de resposta e 270 recursos. Quando se viu isso? Jamais.

Então, é tudo um mar de rosas? Não! Longe disso. Tenho, pelo menos, uma dúzia de críticas e sugestões, sobretudo aquelas que dizem respeito à carência de conhecimento especializado, ao caráter dúbio dos editais, aos furos de previsão legal etc. Mas reconheço que todos fizeram o possível. Talvez... o impossível. Os artistas contaram com o empenho dos conselheiros e dos servidores que se esfalfaram, além do Secretário que dava seus pulos nas madrugadas para justificar eventuais atrasos. O ano de 2021 será o melhor ano cultural que o Estado de Mato Grosso já teve. Eis o resultado: filmes, peças, livros, espetáculos de dança, oficinas de treinamento, ações culturais que contemplam comunidades indígenas e quilombolas. Quando isso aconteceu? Nunca. Os critérios de inclusão e de calibragem, apesar de polêmicos e passíveis de revisão, vão proporcionar uma amplitude ainda maior. Sim, a mulher fez diferença! Sim, o LGBT fez diferença! Sim, o grafitti e o rap têm lugar garantido! Sim, o cidadão com necessidades especiais foi tratado com dignidade! Sim, o cidadão do interior agora pode sonhar com uma vida cultural!

Fui contemplado. Meu elogio é por conta da seleção? Não deixa de ser. É claro que prefiro elogiar a criticar. Mas o elogio não será injustificado de forma alguma e tampouco fundamentado apenas na vantagem pessoal. Basta aguardarmos o ano de 2021 para entender o profundo impacto do trabalho da SECEL. No momento em que você estiver num teatro, numa galeria ou no meio de um show de folclore, visitar uma biblioteca novinha em folha, perambular bestificado por uma exposição fotográfica, assistir a um filme produzido aqui mesmo na nossa terra, lembre-se que essa turma de conselheiros e servidores varou muitas madrugadas.

É por isso que agradeço à equipe que vai aqui nominada:

Jandeivid Lourenço Moura – servidor da SECEL; (Presidente Comissão)
Carolina Modtkowski Galante de Andrade - servidora da SECEL;
Veruska Almeida de Souza - servidora da SECEL;
Lauro Victor Gonçalves - servidor da SECEL;
Daniela Harumi Tada de Castro Pinheiro – servidora da SECEL;
Ariane Alves da Silva - servidora da SECEL;
Everaldo do Nascimento Marques Júnior - servidor da SECEL
Jessica Kelle da Silva - servidora da SECEL;
Jogiane Hellensberger - servidora da SECEL;
Josue Natanael Silva de Andrade - servidor da SECEL;
Marcella Tenuta - servidora da SECEL;
Thaís Arrais da Costa - servidora da SECEL;
Maria Barbara Thane Guinarães - servidora da SECEL;
Raphael Cavassan Dourado - servidor da SECEL;
Evanildes Pereira Santos - servidora da SECEL;
Camila Cristina de Almeida Josué - servidora da SECEL;
Cinthia de Miranda Mattos - servidora da SECEL;
Elaine da Santos Silva - servidora da SECEL;
Carlos Alberto de Assunção Santos - servidor da SECEL;
Robinson de Carvalho Araújo - servidor da SECEL;
Alessandra Keiko Okamura - servidora da SECEL;
Fernanda Quixabeira Machado – servidora da SECEL;
Waldinéia Ribeiro Almeida – servidora da SECEL;
Nilma da Cunha Godoi - servidora da SECEL;
Rayanny Correa Borges - servidora da SECEL;
Luciano Carneiro Alves – Conselheiro Estadual de Cultura;
Cândido Queiroz Neto – Conselheiro Estadual de Cultura;
Zilda Barradas – Conselheira Estadual de Cultura; e
Janderson Perin dos Santos - Conselheiro Estadual de Cultura.
Priscila Cristina Fernandes – Conselheiro Estadual de Cultura;
Maria Jéssica Severina da Silva; servidora da SECEL;
João Felipe Costa Almeida; servidora da SECEL;
Zilma Maria de Araujo Mahfouz Farias; servidora da SECEL.

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