icon Domingo, 17 de Novembro de 2019

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25.09.2019 | 12h:39

Os sapos continuam coaxando

Por: Eduardo Mahon

Reprodução

academia letras

 

É lamentável que Lobivar de Matos ainda esteja atual ao se referir a alguns integrantes da Academia Mato-grossense de Letras.

 

Em 1939, Gervásio Leite e Rubens de Mendonça publicaram a carta aberta de Lobivar na revista Pindorama, da qual extraio um trecho: “Por influência do meio, os imortais e os mortais do norte e do centro produzem quase nada literariamente falando. São vítimas do ambiente. Preguiçosos, indolentes e sem estímulo dos ventiladores que são as nossas ridículas igrejinhas literárias, vivem dormindo numa inércia impressionante. É claro que há exceções. Um poeta bororo, que faz parte da nova geração, há pouco tempo me obrigou a observar um fenômeno literário de grande importância para esta síntese: o atraso dos acadêmicos e dos sapos da Academia. Disse-me o poeta: ‘Menino: parece mentira, mas não entraram ainda nem no Romantismo...’

 

De fato, a observação do poeta é exata. Não digo que ainda não chegaram no Romantismo. Isto de chegar, já chegaram. Não conseguiram avançar mais. Nenhum milímetro. Isto sim.

 

Esse ranço com o tradicionalismo estéril, guarida da improdutividade ou da mera antipatia, já tinha sido ironizado por Manuel Bandeira.

 

No poema Os Sapos, Bandeira vale-se de seu talento para responder à insistente mentalidade conservadora que dominava as associações literárias: “Clame a saparia/ Em críticas céticas:/ Não há mais poesia,/ Mas há artes poéticas...".

 

Em Mato Grosso, um gênio como Wlademir Dias-Pino ficou praticamente sozinho no questionamento dessa pegajosa tradição gongórica.

 

Na revista Sarã, deixou claro sua posição: “O passado da nossa literatura, na verdade, é quase um boato, e como todo o boato tem uma uninha de verdade, essa uninha, por certo, é Lobivar de Mattos, Pedro Medeiros e algumas vezes Antonio Tolentino que foi – é bom que se diga – a melancia da nossa literatura (82% de água – refresco em fruta). Nossa cultura é um Adão e a literatura, a folha de parra. O mais pobre e desnudo dos Adões. Adão pobre e, por isso mesmo, de braços cruzados como quem tem frio. De pernas cruzadas. (...). Pobre coitado – sombria como um corredor em caracol. É redonda como um zero. Sem pontas. Exata. Quer dizer eco. Longe, bem longe – dum? – gráfico. Frouxa, sem consolo”.

 

Dias-Pino ainda continua analisando o barroquismo academicista: “uma literatura improvisada. Deitada, chocando pedrinhas. É uma espécie de artigo comprado em queima de fim de ano. De voz fina. Fica assim parada como se olhando imbecis. Em outras palavras: é conversa fiada, é velho cheio de desculpas e reumatismos.”.

 

Portanto, não nos resta muito a falar além do que já foi dito por Manuel Bandeira, Lobivar de Matos e Wlademir Dias-Pino. Lamentável é perceber a atualidade das colocações desses grandes escritores. Do meu ponto de vista, as academias deveriam servir à sociedade e não se prestar ao elogio autorreferente. Receber estudantes, publicar livros, promover debates, ajudar gestores, incentivar novos autores, promover literatura de qualidade. O que ocorre é o contrário. No livro de um sapo que se arvora em crítico, por exemplo, há uma patética menção a ele mesmo como um dos maiores poetas de Mato Grosso. É triste.

 

De minha parte – e tenho certeza, da parte dos ótimos escritores mato-grossenses que estão dentro e fora da Academia de Letras – não há coaxar que meta medo, nem se for reptos de septos bufantes. Os escritores encontraram um lugar, o seu lugar de direito.

 

A juventude quer se apaixonar pela poesia, quer se encantar com romances, quer mergulhar nos contos. Os professores precisam do nosso apoio para desenvolver um bom trabalho em sala de aula, os gestores públicos demandam conteúdo consistente para as políticas públicas que divulguem a literatura produzida em Mato Grosso.

 

Fiquem aí com coquetéis e convescotes, ficamos cá com a literatura. Cada um dá o que tem. Não nos peçam, entretanto, que façamos parte desse brejo iluminado de sóbrios sapos e sapas. Limitem-se com esse pântano às moscas.

 

Eduardo Mahon é escritor

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