CIDADES Domingo, 01 de Dezembro de 2019, 09:32 - A | A

MEMÓRIA INDÍGENA BRASILEIRA

Deputada propõe reconhecimento da cerimônia do Kuarup como referência cultural

Vivian Nunes/ Marisa Batalha/ O Bom da Noticia

(Foto: Hilda Azevedo/Funai)

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Em representatividade à cultura indígena, a deputada federal por Mato Grosso, Professora Rosa Neide (PT), apresentou à Mesa Diretora da Câmara Federal, em Brasília, Projeto de Lei - Nº 6177/2019 -, que estabelece o reconhecimento da milenar cerimônia indígena - Kuarup -, como manifestação da cultura nacional. 

 

Considerada como a maior cerimônia indígena do Brasil, o ritual é celebrado anualmente pelos povos indígenas no Parque Nacional do Xingu, em Mato Grosso, dando fim a um período de luto e celebração da memória daqueles que já morreram

Considerada como a maior cerimônia indígena do Brasil, o ritual é celebrado anualmente pelos povos indígenas no Parque Nacional do Xingu [região do Alto Xingu], no Leste do Araguaia, em Mato Grosso, dando fim a um período de luto e celebração da memória daqueles que já morreram.

 

Como tradição, durante a cerimônia os entes queridos são lembrados com rezas, cânticos indígenas, danças, comidas e há também o momento onde os índios lamentam e choram pela última vez a partida dos seus ancestrais. 

 

 

Como a história do povo brasileiro é originada dos povos indígenas, a deputada petista pretende, por meio da apresentação do Projeto de Lei, transformar a cerimônia em uma referência cultural na história do país. Adiantando que a matéria já estaria ganhando a adesão de vários colegas no Congresso Nacional. deputados.

 

“Nós temos o samba como um patrimônio imaterial brasileiro [um instrumento de identificação do país], a cultura gauchesca e outras diversas culturas espalhadas pelo Brasil, entretanto, esta Casa de Leis não tem algo que reconheça a cultura dos povos indígenas, em específico, dos povos que estão no Xingu”, pontuou.

 

A manifestação cultural tem como anfitrião a etnia Kamayurá, mas na cerimônia do Kuarup o anfitrião abre portas para receber todas as demais etnias indígenas brasileiras, que fazem questão de estarem presentes em todas as celebrações. 

 

Quando os povos indígenas realizam o ritual, eles retomam uma cultura milenar e a ressignifica, ao resgata-la como a memória de um povo. Em visto disto, a professora e deputada zela pela importância da cerimônia e diz querer manter a história da cultura dos povos xinguanos viva. 

 

“Crianças dos povos xinguanos que estão ali representando, sabem o que estão pintado em seus corpos. Sabem o que significa e o que o povo deles estão comemorando. Isso é muito importante porque não se trata de revisitar somente a origem mas, sobretudo, manter viva a própria história”, ressalta. 

 

Diz ainda que é nesse sentido, de reconhecer o passado, por meio de suas origens, eles resgatam estes saberes para a vida presente. Assegurando, assim, aprendizagens importantíssimas. “A etnia Kamayurá como outros povos indígenas têm uma responsabilidade imensa com suas memórias. Assim, cultuam o conhecimento e valores destes saberes como um bem enorme”. 

 

O Kuarup ocorre sempre um ano após a morte dos parentes e os indígenas os representam por meio de troncos de madeira. Cada um destes mortos tem seu próprio tronco que será homenageado durante a cerimônia. Eles são colocados no centro do pátio da aldeia, ornamentados, como ponto principal de todo o ritual

Ainda de acordo com a parlamentar federal, o projeto foi protocolado na Mesa Diretora da Câmara Federal nesta última quarta-feira (27) e aguarda despacho do presidente da Casa Rodrigo Maia (DEM-RJ) para tramitar.

 

A deputada acredita que após a tramitação e apreciação do pares, o PL será aprovado, pois a cultura dos povos indígenas do Xingu que já é reconhecida internacionalmente, precisa ter o mesmo respeito e valor por parte do Estado Brasileiro. Para reforçar sua aprovação pelo parlamento, a deputada petista pretende levar à Câmara, representantes originais do Xingu para falar de suas tradições e ritos, mostrando aos colegas, o que Mato Grosso tem de melhor na questão dos povos indígenas. 

 

(Foto: Funai)

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Cerimônia do Kuarup

 

O Kuarup ocorre sempre um ano após a morte dos parentes e os indígenas os representam por meio de troncos de madeira. Cada um destes mortos tem seu próprio tronco que será homenageado durante a cerimônia. Eles são colocados no centro do pátio da aldeia, ornamentados, como ponto principal de todo o ritual. Em torno deles, a família faz uma homenagem aos mortos. Passam a noite toda acordados, chorando e rezando pelos seus familiares que se foram. E é assim, com rezas e muito choro, que se despedem, pela última vez.

 

De acordo com a tradição, os convidados que vêm de outras comunidades e acampam nas proximidades da aldeia Kamayurá recebem, das famílias que estão de luto, presentes como peixe e beiju. No total, são 8 etnias que estão presentes aqui. Dentre elas, o anfitrião Kamayurá, e os convidados Kuikuro, Mehinako, Kalapalo, Matipu, Waurá, Kaiabi e Aweti", afirma Pablo Kamaiurá.

 

Kumaré Txicão, Coordenador Regional do Xingu, também esteve compareceu ao evento ajudando na organização e recepção dos presentes. Para Kumaré, "os pajés, familiares e convidados devem estar tranquilos para que possam expressar sua homenagem aos familiares mortos."

 

O rito de passagem das meninas que iniciam a vida adulta também faz parte do ritual. Antes do Kuarup, elas ficam reclusas em casa por um ano, período de reflexão que encerra a puberdade.



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