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ARTIGOS Sexta-feira, 23 de Janeiro de 2026, 17:57 - A | A

Sexta-feira, 23 de Janeiro de 2026, 17h:57 - A | A

Melina Bufete

Mulheres no eixo e a liderança que começa por dentro

Entre resultados, expectativas e decisões, cresce o debate sobre consciência de si, limites e vulnerabilidade na liderança feminina contemporânea.

Há uma geração de mulheres que aprendeu cedo a sustentar muito. Sustentar resultados, relações, decisões difíceis, equipes inteiras. São mulheres que lideram no trabalho, nos negócios e, muitas vezes, também na própria vida. Do lado de fora, parecem firmes. Do lado de dentro, nem sempre conseguem se escutar.

O discurso da liderança feminina avançou nos últimos anos, mas ainda carrega um ruído importante, a ideia de que, para ocupar espaços, a mulher precisa endurecer. Ser mais forte, mais objetiva, menos sensível. Como se consciência emocional fosse sinônimo de fragilidade e vulnerabilidade fosse incompatível com autoridade.

Na prática, o cansaço não nasce apenas da sobrecarga de tarefas, mas da desconexão prolongada com quem se é. Muitas mulheres lideram com competência, entregam resultados e são referência em seus ambientes, mas já não sabem responder perguntas simples, quem eu sou além do cargo? Onde termino eu e começa a expectativa do outro? O que, afinal, estou sustentando, e por quê?

É comum reconhecer esse padrão em cenas cotidianas. A mulher que lidera uma equipe durante o dia, resolve conflitos à noite e ainda carrega a expectativa de estar sempre disponível. Que responde mensagens fora do horário, evita demonstrar dúvida e sente culpa quando precisa parar. Não por fraqueza, mas por hábito. Um hábito aprendido, reforçado e raramente questionado.

Talvez o maior custo da liderança feminina hoje não esteja no excesso de responsabilidades, mas na dificuldade de admitir cansaço sem o receio de perder legitimidade. Em muitos ambientes, a mulher ainda sente que precisa provar, continuamente, que dá conta, mesmo quando o preço é o afastamento de si mesma.

Nesse contexto, começa a ganhar espaço um movimento mais silencioso. Menos focado em performance e mais atento à consciência. Iniciativas que não prometem fórmulas prontas nem discursos motivacionais vazios, mas propõem conversas mais profundas sobre identidade, limites e autorresponsabilidade. Não para ensinar mulheres a liderar melhor, mas para ajudá-las a se reorganizar por dentro.

Falar de vulnerabilidade nesse cenário exige cuidado. Não se trata de exposição gratuita, nem de transformar emoções em espetáculo. Vulnerabilidade, quando compreendida com maturidade, é potência silenciosa. Permite clareza, presença e escolhas mais conscientes. É o oposto da fragilidade romantizada que tantas vezes circula nas redes.

Outro ponto sensível é o limite. Mulheres acostumadas a sustentar tudo frequentemente confundem responsabilidade com autoanulação. Reorganizar limites não significa perder espaço ou respeito, mas assumir, de forma clara, até onde se vai e por que se vai. Limites bem definidos não enfraquecem a liderança, ao contrário, a tornam mais consistente.

Por isso, encontros presenciais menores, intimistas e bem delimitados começam a ter relevância renovada. Não pelo formato em si, mas pelo que representam, a retomada do diálogo honesto, longe da lógica da exposição permanente. Conversas seguras, entre poucas pessoas, ainda são um dos caminhos mais potentes para reflexão real.

Talvez o movimento mais interessante desta fase não seja ensinar mulheres a fazer mais, mas criar espaços para que possam se escutar melhor. Não para abandonar posições, mas para ocupá-las com mais consciência. Liderar, afinal, não começa no cargo, no discurso ou na imagem pública. Começa no eixo interno, aquele que, quando está alinhado, sustenta qualquer papel com mais verdade.

Melina Bufete atua com liderança humana e desenvolvimento de mulheres em posições de decisão. Seu trabalho dialoga com a construção de resultados sustentáveis, integrando performance, consciência e responsabilidade emocional no ambiente corporativo.

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