Sábado, 07 de Março de 2026

CIDADES Sábado, 07 de Março de 2026, 17:56 - A | A

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DIA DAS MULHERES

Mara Régia comanda há 45 anos programa em defesa dos direitos das mulheres: 'Viva Maria'

Da Redação do O Bom da Notícia/Com Assessoria

Há 45 anos, a jornalista Mara Régia Di Perna conduz um dos programas mais longevos e simbólicos do rádio brasileiro. À frente do “Viva Maria”, transmitido pela Rádio Nacional, ela construiu uma trajetória marcada pela defesa dos direitos das mulheres, pela mobilização social e pelo diálogo direto com as comunidades amazônicas.

Criado no início da década de 1980, o programa nasceu com um propósito claro: abrir espaço para as vozes femininas em um momento em que as mulheres ainda tinham pouca presença nos meios de comunicação.

“Era inadmissível que, sendo mais da metade da população brasileira, as mulheres não tivessem voz nos microfones”, lembra a Mara Régia, que nasceu na cidade do Rio de Janeiro, mas por essas coincidências recebeu o nome da flor símbolo da Amazônia.

Ao longo de mais de quatro décadas, o Viva Maria se consolidou como um espaço de debate sobre cidadania, igualdade de gênero, saúde, meio ambiente e direitos humanos, alcançando milhões de ouvintes em diferentes regiões do país — especialmente na Amazônia, onde o rádio continua sendo um dos principais meios de comunicação.

O programa levou Mara a conhecer todo o Brasil, construir pontes com mulheres e organizações no Brasil e no mundo, chegando até a ser indicada ao Nobel da Paz, pela sua reconhecida atuação junto às lideranças comunitárias femininas. Em 2005, ela fez parte da indicação coletiva do projeto 1000 Mulheres para o Prêmio Nobel da Paz.

Mara Régia estará em Cuiabá, no dia 10 de abril, para fazer a palestra de abertura do VI Seminário de Rádio, falando sobre o tema “Rádio, a mídia da emoção e ferramenta cidadã”.

Do sonho de ser artista ao encontro com o jornalismo

Antes de construir carreira no rádio, Mara Régia imaginava um futuro ligado às artes. Ela viveu na Inglaterra, onde estudou História da Arte e frequentou uma escola especializada em artes visuais, o Molly College. Na época, acreditava que seguiria carreira como pintora. No entanto, a vida acabou conduzindo a jornalista por outro caminho.

Após retornar ao Brasil, passou um período em São Paulo. Pouco tempo depois, mudou-se para Brasília, onde cursou jornalismo e publicidade na Universidade de Brasília (UNB).

Na capital federal, conciliou os estudos com trabalhos na área de publicidade e participação em oficinas de teatro e cinema promovidas pela universidade. Foi nesse período que recebeu um convite inesperado de um amigo: conhecer a recém-criada Rádio Nacional da Amazônia.

Ao chegar à emissora, Mara Régia passou a trabalhar nos bastidores da programação. Um de seus primeiros desafios foi produzir conteúdos destinados aos trabalhadores da floresta, como os seringueiros.

Com o tempo, a jornalista começou a se aproximar cada vez mais da realidade amazônica. Participou de projetos de comunicação e educação ambiental e realizou dezenas de viagens pela região.

Essas experiências consolidaram uma relação profunda com a Amazônia e com as populações que vivem em áreas isoladas, muitas vezes sem acesso a outros meios de comunicação.

O nascimento do Viva Maria

A criação do Viva Maria ocorreu de maneira inesperada. Dois locutores esportivos da emissora foram demitidos após um desentendimento ao vivo, deixando um espaço vago na programação. O gerente da rádio então sugeriu que ela assumisse o horário.

A jornalista aceitou, mas com uma condição: queria produzir um programa voltado exclusivamente para as mulheres. Assim nasceu o Viva Maria, em 14 de setembro de 1981. A proposta era inovadora para a época: discutir a realidade feminina e abrir os microfones para lideranças, pesquisadoras, ativistas e mulheres comuns que raramente tinham espaço na mídia.

Nos primeiros anos, a iniciativa enfrentou resistência dentro da própria emissora. A jornalista lembra que havia a crença de que mulheres não teriam interesse em ouvir um programa apresentado por outra mulher, sendo sugerido que ela tivesse um colega apresentador homem, porque as mulheres queriam ouvir vozes de homens.

Durante os anos 1980, o programa se transformou em uma ferramenta de mobilização social. Por meio do rádio, o Viva Maria incentivou mulheres a participar de movimentos e a pressionar parlamentares por direitos que seriam incorporados à Constituição de 1988.

O programa também serviu como ponto de encontro para movimentos feministas do Distrito Federal. Entre as iniciativas impulsionadas nesse período estão ações que contribuíram para a criação da primeira Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher em Brasília e do Conselho dos Direitos da Mulher.

O rádio que chega onde outros meios não chegam

Uma das marcas da trajetória de Mara Régia é a relação com a Amazônia e o reconhecimento do rádio como instrumento essencial de comunicação em regiões isoladas. A Rádio Nacional da Amazônia opera em ondas curtas, tecnologia capaz de alcançar longas distâncias e regiões onde não há acesso à internet, televisão ou telefonia. Segundo a jornalista, o sinal da emissora pode alcançar cerca de 17 milhões de pessoas.

Em muitas comunidades, o rádio é a única fonte de informação disponível. Basta um aparelho simples, muitas vezes alimentado por pilhas, para receber a programação.

A jornalista lembra que já recebeu relatos de ouvintes que aprenderam desde práticas básicas de saúde até orientações sobre como agir em situações de emergência após ouvir programas da rádio.

Adolescente vendida pelo pai em MT

Uma história que se repete até hoje marcou Mara Régia. Entre as muitas histórias encaminhadas a emissora, a jornalista recebeu uma carta de uma menina de 12 anos, de Aripuanã (960 km de Cuiabá), que relatava ter sido vendida pelo próprio pai para exploração sexual. A primeira venda teria ocorrido quando a criança tinha apenas nove anos.
O relato chegou à rádio como um pedido de socorro. A adolescente pedia ajuda porque não queria o mesmo destino para as irmãs mais novas. A partir da denúncia, foi possível entrar em contato com as autoridades e interromper o ciclo de exploração e dor.

Feminismo, política e desafios atuais

Para a jornalista, a violência política de gênero continua sendo uma realidade. Ela cita exemplos como o assassinato da vereadora Marielle Franco e os ataques sofridos pela ministra do Meio Ambiente Marina Silva. “Precisamos estimular as mulheres a exercer o poder, mas sabemos que esse caminho ainda é cheio de desafios”, afirma.

Depois de mais de quatro décadas no ar, o Viva Maria também passou a ser analisado no meio acadêmico. Segundo Mara Régia, cerca de 30 trabalhos científicos — entre teses, dissertações e pesquisas — já estudaram a metodologia e o impacto do programa.

Esse material será reunido no projeto “Viva Maria na Academia”, que pretende organizar essas referências em uma publicação voltada a pesquisadores e comunicadoras. A iniciativa busca inspirar novas gerações de mulheres a ocupar os microfones e a utilizar o rádio como instrumento de transformação social.

Mesmo diante das transformações tecnológicas e da expansão das redes sociais, Mara Régia acredita que o rádio continua sendo um dos meios mais democráticos de comunicação. “Para ouvir rádio, você não precisa de internet. Basta uma pilha”, afirma.

Segundo ela, essa simplicidade explica por que o veículo ainda consegue alcançar regiões e públicos que permanecem distantes das plataformas digitais. Mais do que tecnologia, porém, o que sustenta o programa é a relação de confiança construída ao longo dos anos com as ouvintes. “Depois de tanto tempo no ar, foi criado com essas mulheres, as ouvintes, uma relação de confiança que só se tem com nossas amigas”, finaliza Mara Régia.

Seminário Mato-grossense de Rádio

O VI Seminário Mato-grossense de Rádio será realizado no dia 27 de março, em Barra do Garças – visando atender o público da Região do Araguaia – e nos dias 09 e 10 de abril, em Cuiabá. Com o tema “Metaformose – O Rádio supera os 100 anos no Brasil mais atual do que nunca”, a programação do Seminário inclui palestras, oficinas e apresentações culturais.

O seminário é organizado pelo Mutirum Instituto, com apoio da Sedec-MT (Secretaria de Desenvolvimento Econômico de Mato Grosso) e da Assembleia Legislativa, por meio de emenda do deputado Lúdio Cabral (PT).

As inscrições são gratuitas e podem ser feitas no site do Mutirum Instituto (www.mutirum.com) ou no site da Sapicuá Rádio Agência (www.sapicua.com.br).

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